quinta-feira, 11 de maio de 2017

A pichação.




Entre os anos de 1979 e 80, havia entre nós jovens, uma incontestável insatisfação com a política, mas, eu e meus amigos, éramos crianças... pouco, podíamos fazer.
Na estrada que levava ao cenáculo, eu enrolava a linha na lata, com todo o cuidado para não embolá-la, o Viana, com toda propriedade, trazia um pipa que fora aparado pela rabiola, nisso ele era mestre.
Eu não sabia empinar, nem fazia questão de aprender, gostava de pô-lo no ar e, ficava olhando, vendo os movimentos, pura liberdade, o amigo Viana era o oposto da moeda, tinha habilidade pra confeccionar as mais lindas pipas e os manobrava com tal maestria, que, nunca o vi perder um centímetro de linha, bastava olhar para um adversário e, em questão de minutos, já havia cortado e aparado, costumava dizer que só as pessoas que ele permitia, tinham direito de empinar no seu espaço aéreo.
O toca-fitas ficava embaixo de uma arvore, bem na curva da estrada, a voz do Milton cantava "Olho d'água", o Viana gostava da sonoridade das músicas do Clube da Esquina, vendo que eu tinha dificuldades em desenrolar a linha, foi me ajudar.
_Esses nomes... Todos tem um sentido escondidos, né?
_É, são pessoas que morreram ou desapareceram na luta.
E, como eu era o outro lado da moeda, tinha a inteligência, que os meninos não costumam ter nessa idade.
_Cuidado para não ter seu nome numa canção dessas.
Nessa altura, não fazia sentido esconder do amigo, que eu frequentava reuniões clandestinas do partidão, o Miguel e o Satírio eram os acompanhantes nessa luta, o Viana que não ligava para política, disse que ia me proteger, dizia que tinha uma dívida comigo, já que eu havia conseguido o que a escola julgou impossível... alfabetizá-lo.
Embarcamos nessa aventura, isso era muito mais que roubar frutas do Bráulio ou passear no Taboão da Serra em lombos dos cavalos e, muito mais perigoso.
Um dia, meu amigo Rogério, que todos chamavam de Punk, deu-nos, em troca de seis pipas, duas latas de tinta spray, ficamos doidos para usa-las.
Nessa época, o ônibus da Castro fazia o itinerário da Praça da Bandeira, depois de passar em Pinheiros, pegava a Avenida Brasil e seguia até a Nove de Julho... Na avenida Brasil, perto da igreja da Nossa Senhora do Brasil, haviam umas mansões abandonadas, resolvemos que ia ser ali que deixaríamos a nossa marca, o Satírio e o Miguel roeram a corda, sabiam que por esses lados residiam muitos militares e fomos só eu e o Viana.
Levamos as latas numa mochila verde, dessas que os recrutas ganhavam no exército e vendiam pros civis, descemos em Pinheiros, na Faria Lima e seguimos a pé, se tivéssemos que ser parados, seria nesse percurso, tinha que ser uma que se visse da avenida, essa tinha uma cerca gigante com pontas de lança, escalamos e jogamo-nos pra dentro, enquanto eu me escondia no jardim e via o movimento, o Viana abriu a mochila e tirou as latas, ficou com uma e me deu a outra, ele montou guarda, corri até a parede frontal e escrevi: ABAIXO, corri pro muro e o Viana foi escrever o resto da frase, lá fora, uma pessoa que passava no ônibus gritou, o Viana chegou ao meu lado, preparávamos para pular o muro de volta, quando olhei pra parede... que merda, o neguinho havia escrito DITADORA, corri pra parede, fiz duas riscas cruzadas em diagonal e escrevi a palavra certa, pulamos as lanças de volta e ganhamos a rua, jogamos as latas ao lado de uma árvore, o Viana não quis dispensar a mochila, subimos até a Rebouças e seguimos, antes de chegar na metade do quarteirão, fomos emparelhados por uma Veraneio preta e vermelha:
_Encostem-se à parede!
Viramos pra parede e colocamos as mãos na nuca.
_Quais as idades?
_Eu tenho 12 e ele tem 13_Disse eu, o Viana estava petrificado de medo.
Mandaram e entramos no camburão, a música do Milton me veio à mente, será que ele faria uma, com o meu nome?
Ficamos em silencio toda a viajem, o carro parou, mandaram que pulássemos e pulamos pra fora, olhamos e conhecemos o local, era o ponto da FOSECO, na Raposo Tavares, meio caminho do Educandário Dom Duarte, assim que chegamos ao banco do ponto, eles ligaram o carro e foram embora.
Ficamos em silencio parte da viajem e, do nada, o Viana gritou:
_Que porra que foi isso?
Sem saber o que dizer, dei de ombros e disse:
_Sei lá, nosso anjo da guarda fez hora-extra.
_Moleque, vou sempre andar com você, você é um filho da mãe mais sortudo do mundo.
E, ninguém entendeu nada, dois guris rindo com gosto.
Quatro dias, foi o que durou a pichação na Avenida Brasil, mas, todos os nossos amigos viram.
Dias depois, quando íamos pro centro, vimos, no muro do cemitério da Consolação a palavra DITADORA riscada e corrigida, ninguém entendeu o fato dos dois neguinhos caíram na gargalhada.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O caso dos 12 cavalos.




Tinham os internos do Educandário Dom Duarte, oriundos da Casa da Infância do Menino Jesus, o habito se reunirem, independentemente de estarem em pavilhões (geograficamente) distantes. Era a convivência da primeira infância e a saudade das freiras, que os mantinham juntos, posto que, foi lá que começaram as amizades. Em ocasiões específicas, como domingos de visitas, quando a atenção dos administradores e funcionários estava desviada, ou nas férias, quando o efetivo de moradores se reduzia a menos da metade, que eles se encontravam e saiam pelo espaço do Educandário em aventuras.
Então, era comum que eu, que morava no 14, que se localizava no extremo sul, encontrasse com regularidade com (por exemplo) os irmãos Lustosa, que moravam no 24 (extremo leste), por vezes essas aventuras chegavam até a caixa d’água (João XXIII) ou no Pirajuçara. Por vezes, essas andanças acabaram em tragédias, cito o caso do Alaor, que, brincando com combustível, acabou morrendo carbonizado no 19, ou o caso do Ratinho e o Xodó, ambos do 21, que jogaram BHC na caixa de água, que abastecia o colégio, ou a ocasião que invadimos a escola Luiz Elias Attiê, ainda em obra. Num dia de domingo, como estávamos com a tarde livre, eu, o Fabiano (12), o Donizete (12), o outro Donizete (19), os Paulo e Valdir Lustosa (24), o Celso (13), fomos ao pomar, que ficava atrás do Cenáculo, que era mais conhecido como lar 25, vizinho da igreja, que ficava ao lado do 18. Costumávamos colher mexericas e jabuticabas, por lá e depois tínhamos que correr, já que o vigia costumava receber os visitantes a tiros de sal, ele costumava esconder-se, enquanto recolhíamos as frutas e só aparecia quando já havíamos enchido nossas camisas pulôver, aí ele saía, gritando palavrões e atirando.
Terror puro, correr carregando uns sete ou 8 quilos, com um maluco atirando em você, mas, ele não corria muito e sempre dava para escapar, ainda tenho na pele essas marcas.
Descemos pela mata que chegava à olaria e subimos em direção ao 14, no caminho que dava na estrada do 18, havia o campo e acima, o que chamávamos de bosque, esse era o limite territorial do pavilhão, do lado esquerdo uma grande extensão de terra, que havia sido a horta do japonês, mas, já tinha dado tudo que tinha de dar e estava já abandonada, ali crescia um alto capim e, uns cavalos pastavam ali, era o local ideal para matar o tempo. Às vezes empinávamos pipas, mas a maioria das vezes, ficávamos brincando e montando os cavalos, foi ali que aprendemos a montar, demos até nomes para os cavalos, o meu se chamava Odilon e era malhado, era o mais calmo de todos, que não sou bobo.
O fato é que, numa bela tarde de primavera, apareceu na estrada, um senhor bem vestido, disse ser o dono dos cavalos, muito educado, tinha um Corcel II marrom, disse que ia dar um dinheirinho, caso a gente ajudasse na remoção dos animais, na hora topamos.
Na estrada, um segundo homem estacionou um caminhão, desses que transportam cargas vivas, com a esteira para subir na carroceria. Buscamos os animais, que se espalhavam pelo terreno e, um a um, levamos para o caminhão, não gastamos mais de meia hora. Pegamos o dinheiro e fui para o mercado Paraná, gasta-lo, eu comprei três pacotes de bolacha, um pote de Amendocrem e um desodorante de limão.
Está rindo do que? Eu tinha 11 anos, isso foi uma compra de responsa. Quando já anoitecia, dispersamos a turma, orgulhosos de um dia legal. Eu já dormia á muitos, quando me acordaram aos gritos:
_. Tem uma viatura da polícia, estão te chamando. Assustado e confuso, as mãos no cordão que segurava o meu pijama, fui para a área do pavilhão, uma Veraneio preta e vermelha estava estacionada lá, abriram a parte de trás e eu pude ver o Paulo e o Fabiano, mas tive a impressão que os outros amigos estavam todos amontoados lá dentro, pensei que iam me jogar lá também, mandaram que eu me sentasse no banco de madeira, bem ao lado do tanque, sentei-me. Só então, fui perceber que conhecia os policiais, sempre que eles passavam pelo milharal pediam umas espigas e eu dava, uma vez recolhemos um saco, desses de 60 litros, cheios de milho, então, eles já sabiam meu nome:
_Nilton, Conta para a gente como foi o seu dia, todo mundo se sentou para ouvir. Comecei a história com riqueza de detalhes, desde o apanhar das frutas, que isso eu sei fazer desde muito pequeno... tudo, do jeito que acontecera e todos prestando atenção.
Quando terminei a narrativa todos riram, riram tão alto que os meninos, de dentro do camburão esticaram-se para saber a boa.
Um dos policiais falou ao rádio e outro foi tirar os meninos da traseira e conduzi-los aos bancos do carro, iriam leva-lo, cada um a seus respectivos pavilhões
Quando se despediram, ainda riam e depois disso, sempre que nos encontravam, faziam piadas de cavalos.
Nunca soubemos quem de fato era o dono dos cavalos.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Meu melhor amigo (Final)




  Já que essa é uma quarta parte de uma história, não vou me ater em prefácios ou considerações desnecessárias, posto que, em um capitulo eu poderia ter escrito tudo.
  Não, não poderia e, você vai entender o motivo da minha demora.
  Feito isso então, convido o leitor a uma história das que eu não gosto de escrever, uma história sem final feliz.
  Não era muito comum de acontecer, mas em algumas tardes fazíamos atividades numa salinha que ficava no fundo da quadra e era o subsolo do teatro, as atividades eram mais recreativas que, propriamente lúdicas.
  Como isso se dava em horário de recreio, ao invés de subirmos pro pátio, brincávamos na quadra.
  Brincar na quadra sem bola exigia muita criatividade, alguém sugeriu esconde-esconde e determinou que, se alguém subisse pra rampa não valeria.
  Amigos que éramos, assim que o Hélio virou-se pra bater cara na parede da sala de jogos, corremos juntos, da portaria para o refeitório, a rampa faz um perfeito angulo de 90 graus, nessa inclinação ficou um vão, nesse vão foi construída uma pequena sala, onde eram guardadas as ferramentas de jardinagem, revestida de madeira e a porta ficava de frente com o portão vidrado que dava acesso à lavanderia. Esse depósito estava na altura da quadra e um pequeno muro separava o jardim.
  . Corremos juntos e, a intenção era nos esconder no jardim, era nosso costume apoiar as mãos no muro (que tinha a altura de nossas cinturas) e jogar os corpos para a frente, como se pulássemos no dorso de um cavalo. O fizemos juntos e ao mesmo tempo, o que não podíamos imaginar é que, no lado de dentro do jardim, alguém havia jogado uns cacos de garrafas quebradas.
  Ora, a primeira coisa que guri faz, pra iniciar uma corrida é se livrar do calçado, quando alcançamos o chão do outro lado, aterrissamos em cima dos cacos, a dor não foi imediata, o choro era causado pela angustia de tanto sangue, fechamos os olhos e gritamos por socorro.
  A madre Enfermeira nos atendeu, lavou-nos os pés e o seu Paulo já nos esperava pra levar ao hospital.
  Meus cortes foram profundos e sempre tive a cicatrização rápida, enquanto eu era atendido num leito simples, o Fernandinho foi levado pra outra sala, um time de médicos e enfermeiras o acompanhava, em coisa de duas horas, o médico disse que eu estava liberado, os dois pés enfaixados, o seu Paulo trouxe uma cadeira de rodas, perguntei do amigo e ele disse que ainda havia umas radiografias a ser tirada, a madre Enfermeira ficaria com ele, notei que o seu Paulo disfarçava uma preocupação.
  Em uma semana, já haviam me retirado as faixas e eu tentava andar, apenas uma pequena dor e nada do Fernandinho, a madre Enfermeira me evitava e as outras freiras não conseguiam evitar um ar de crescente pesar, eu perguntava sobre e todas elas desconversavam.
Mais uns dias se passaram, eu já jogava bola e a turma do São Pedro foi convocada pra uma reunião, a Madre Brasil explicou que o Fernandinho ia ficar um bom tempo na enfermaria, tudo o que era dele havia sido levado pra lá, ao fim da reunião a madre disse pra eu ficar, queria falar comigo a sós. Me disse que a única pessoa que poderia visita-lo era eu, não queria ver mais ninguém.
  Levou-me à enfermaria, falou que eu deveria ser forte, imaginei o pior e quando me viu sorriu, não me pareceu tão mal assim.
  Seus pés ainda não haviam cicatrizado e era uma carne purulenta, feio de se ver.
  Desde muito pequeno, tenho a capacidade de disfarçar algumas emoções, dificilmente me assustam as coisas, na verdade assustam, só que eu não demonstro que me assustei, criei isso sozinho, pra me defender, se não me vissem sentimentos como o medo e o horror, jamais poderiam me atingir.
  Então, se aquela ferida me dava náusea, o amigo não perceberia e jamais sentiria o constrangimento de causar o horror em olhares alheios.
  Fiquei na enfermaria com o amigo e só saí na hora da janta.
  No dia seguinte a madre Márcia perguntou se eu não me importaria de dormir no leito vizinho do amigo...sem problemas e, fiquei.
  Todas as revistinhas da sala de jogos foram levadas pra nós, eu tomava café, almoçava e jantava na enfermaria, só saía em horário de aula, assim que terminava a aula, a tia Sonia subia comigo e passava as mesmas lições que passara em sala, quando não dava para fazê-lo me encarregava de passar a matéria pro amigo.
  Conversávamos muito, brincávamos e riamos muito, porém, eu via no olhar dos adultos, que a coisa não ia bem.
  Uma tarde quando eu vinha da aula, não estava na cama o amigo, disseram que ia sofrer uma cirurgia e voltaria em uns três dias, os olhos da madre Brasil estavam vermelhos e ela evitava me olhar de frente, que remédio... voltei pro pátio.
  Em três dias voltou me avisaram e quando subia as escadas, nos últimos degraus parei, sem que elas me vissem, fiquei a olhar a cena, a madre Brasil chorava copiosamente e a Enfermeira a acalmava, estavam ali, fora do hall da enfermaria, para que o paciente não percebesse a cena, dei uns passos pra trás e voltei pro começo do último lance da escada e iniciei a subida batendo os pés com força, perceberam a minha presença e ficaram em posição de sentido, dei bom dia para as irmãs.
  As duas respiraram fundo e corresponderam à saudação, já sem as lagrimas, a madre Brasil, como já era de costume, ajoelhou-se e fico da minha altura, me deu um beijo e disse:
_Seja forte, muito forte.
  Não deu pra entender, mas, fiz que houvesse entendido, levantou-se e pegou na minha mão, me levou ao quarto do Fernandinho.
  O amigo estava deitado, seus olhos tristes buscavam um ponto inexistente no raio de sol, que vinha da janela de vidro, a madre Enfermeira ficou na porta, a outra foi comigo até o pé da cama.
  Só agora, olhando de perto, vi o que fazia a infelicidade do amigo, o joelho da perna esquerda estava enfaixado e terminava ali, haviam amputado o resto da perna.
  Não me olhou o amigo, um profundo silêncio reinou no quarto, uma borboleta bateu no vidro, ainda que ela pudesse ver o ambiente do outro lado, não podia transpor a barreira, inconformada, jogou-se contra o vidro na vã tentativa de entrar.
  Nove anos eu tinha, nessa pouca idade já presenciara coisas que fariam essa cena ser banal, abri a janela, com a borboleta, uma brisa refrescante invadiu o quarto, mostrei o meu melhor sorriso:
_Caramba, imagina se te derem uma perna biônica, daquela do "Homem de seis milhões de dólares", não seria legal?
  E saiu assim, na maior de todas as naturalidades do mundo, o amigo não olhava mais pro tal ponto, fechou os olhos e começou imaginar o que eu havia proposto, segundo depois soltou uma sonora gargalhada e me abraçou, ria também a madre Brasil, madre Enfermeira entrou e, entre as risadas fazia SSSSSHHHHHHH.
  A mãe dele vinha nos fins de semanas, como era costume de anos, trazia os nossos doces, na cama brincávamos de forte apache e a Rúbia emprestou-nos uma vitrola com vários discos, o tio do Alberto veio num dia de visitas e mandou instalar uma televisão em cores, doou pra enfermaria, de vez em quando ele pedia pra passear pelo colégio, na cadeira de rodas e eu empurrando, por todos os caminhos que costumávamos nos aventurar.
  Um dia, eu estava em aula, chegou à madre Da Glória e disse que o amigo havia partido, só então, me disseram que se tratava de câncer.
Houve velório e cerimônia de enterro, me recusei a comparecer nos dois eventos.
Entre a entrada no hospital e o final de tudo, foram cinco meses e, a falta é eterna.