quinta-feira, 8 de junho de 2017

O sexteto infernal


  Cheguei ao Educandário Dom Duarte em 17 de Fevereiro de 1977, era uma terça feira, já fui descendo da Kombi e pegando na padiola, na marmita veio o almoço ao pavilhão...fígado com batata.
  No tempo que faltava pro fim de semana, conheci o pino e a enxada, tinha que viver esse mundo novo e aprender com os que já moravam por ali.
  No primeiro sábado, depois da enxada, tive um dia de folga e sentei-me debaixo da araucária, que ficava no bosque, alguns meninos desciam o barranco, sentados na folha da palmeira, me convidaram pra brincadeira e eu me recusei, queria ficar sozinho, queria assimilar esse mundo novo, não estava acostumado com tanto espaço.
  Nem bem havia fechado os olhos e ouvi os gritos que vinham da estrada que levava à olaria.
  _Ei novão, ei novão.
  Eram o Edson Martins, o Viana, o Téquinha, o Ovinho e o Spock, a turma do quarto dos médios.
  _Bóra, vamos ali catar umas mexericas...
  Sem saber onde ficava esse lugar que eles iam buscar frutas, fui com eles, descemos a estrada e ladeamos a horta do japonês, no fim dela dobramos à direita, era uma turma estranha aquela.
  O Téquinha, apesar de ter a nossa idade, era um preto alto e brincalhão, o Viana era um preto baixo, desconfiava de tudo e todos, o Edson era daqueles brancos queimados de sol, que quando nervoso gaguejava, o Adilson(Ovinho) era branco, deles todos, o mais simples e o Valter(Spock) era de cor indefinida, um índio com traços de negros, um mulato com cara de branco.
  Enquanto seguíamos a estradinha que ladeava o lago, o Ovinho perguntou pros outros se podia contar, pra mim, alguma coisa.
  Todos acenaram negativamente e, me passou a sensação de que estavam me aprontando alguma e, já havíamos entrado na mata fechada, resolvi ficar esperto no movimento deles.
  Vencida a mata, chegamos ao Bráulio da Silva...um imenso pomar, um paraíso na terra, havia jabuticaba, ameixa amarela, cana e mexericas.
Pulamos a cerca e partimos pra pilha, nos espalhamos e, eu e o Ovinho fomos direto nos pés de mexericas, eu derrubava e ele recolhia.
  Pronto, já havíamos enchido as camisas e ouvimos os latidos, dois pastores alemães, os outros quatro já seguiam em carreira, quando o Adilson gritou:
  _Era isso, que eu ia dizer.
  Com a minha camisa cheia às costas, abri a corrida, o Adilson ficou pra trás e gritava, os outros riam.
  Do outro lado da cerca, já livres dos cachorros paramos pra descansar e rir da bermuda rasgada do Ovinho, na volta pra casa caminhamos felizes, essa turma participaria de muitas aventuras mais e, esse foi o ponto de partida.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

A quebra da hierarquia.


De longe, Jô Soares sempre foi e sempre será meu melhor humorista, seu programa nas noites dos anos 1980 unia humor rasgado à mais fina inteligência, na sala do pavilhão 14 era o que se assistia.
Ás 5:30 horas, enquanto os pequenos e médios, munidos de suas vassourinhas, começavam a varrer a estrada que seguia para o cenáculo, os grandes desciam a estrada do milharal, rumo aos seus empregos, os que varriam usavam calções feitos de sacos de ração, os que seguiam para o trabalho vestiam a última moda.
Pequenos eram os internos de 7 a 10 anos, médios estavam na faixa etária de 11 a 13 anos, os que tinham entre 14 e 18, eram considerados grandes.
Hierarquia era uma coisa sagrada, levada muito à sério no pavilhão 14, já contei que, os pequenos só podiam entrar em campo, quando os grandes se cansavam, de noite, quando eles voltavam de seus empregos, escolhiam a programação da televisão e, só a eles, cabia o direito de sentarem nas poucas cadeiras que cercavam a mesa, ao resto, sobrava o tapete ou o chão frio, ninguém contestava isso, era a regra.
O mais forte de cada pavilhão era chamado de Tuba e, era admirado por todos, ninguém gostava de verdade do Roda, por conta disso, o mais admirado do lar 14 era o vice tuba, o Legú.
Diferente do Roda, que era o mal humor em pessoa, o Legú era calmo, praticante de artes marciais e faixa preta de judô, aos fins de semana era fácil vê-lo destruindo as bananeiras à golpes de kung Fú, vestido em seus quimonos coloridos.
Eu tinha idade de pequeno e altura de médio e, como já disse também, capacidade de armazenar informações e associar as coisas e, uma abominação mortal por ideias pré-concebidas.
Quando inaugurou o programa “Viva o gordo”, foi um alarde grande, a ditadura já estava quase acabada e esse programa tinha um conteúdo político bem apurado, regado de muita inteligência, a sala do 14 ficou lotada, grandes e médios nas cadeiras e a cadeira ao lado do Legú estava vazia, ele a usava para apoiar os pés.
Em alguns quadros do programa, o conteúdo era leve e as risadas eram frouxas, os pequenos com as bundas no chão gelado.
Havia um personagem que era um general que, depois de vinte anos em coma, acorda e vê o mundo mudado, acaba que ele havia perdido o tempo todo da ditadura militar.
À certa altura, o personagem entra no assunto da Argentina e eu ri muito, no meio da risada percebi que ria sozinho, o resto da sala me olhava, querendo entender a piada.
_Oi gente, Leopoldo Gaultier é o presidente da Argentina.
E tive que fazer um breve relatório do contexto da piada, do seu canto, o Legú me olhou de canto de olho e respirou fundo.
Continua o programa e acontece de novo, só eu ri...
_Gente, Shigeaki Ueki é ministro de Minas e Energia, a piada foi feita por ser ele de origem oriental.
Desta vez, o Legú olhou-me, fechou a cara e cruzou os braços, recolhendo os pés da cadeira vizinha, imaginei que eu corria perigo de vida e me esforcei para não rir mais.
Não deu, momentos depois, tive que rir e, de novo, ri sozinho.
O Legú se levantou irado, deu uma bica na cadeira ao seu lado e gritou:
_Moleque, senta aqui do meu lado.

O chupim




  Na segunda metade dos anos 1970, o Educandário Dom Duarte era uma pequena cidade do interior, em pleno coração da capital paulista, muito pouco do ruído de fora, interferia no cotidiano dos moradores dessa cidadezinha, para fazer justiça de verdade, o colégio parecia um pequeno país...a vasta extensão territorial, compreendia uma linha imaginária que seguia da avenida Heitor Antônio Eiras Garcia até o Taboão da Serra e outra linha que compreendia a parte norte do bairro do João XXIII até a Pedreira, vizinha da Vila Borges, toda essa terra fora doada pelo ilustre casal Bráulio Silva, ainda no começo dos anos 1930.
  Se pudéssemos ver o colégio como um pequeno país, poderíamos ver que, cada pavilhão poderia ser um estado, cada qual com seu quinhão de terra e seus limites territoriais, sob a leis de um comando central, a administração, o seu Tinoco seria o ministro da fazenda, o seu Alones seria um ministro administrativo e o Domingão seria o chefe do executivo.
  Cada pavilhão tinha a sua bandeira, posto que, em tempos de campeonato interno, cada um gritava pelos seus e, havia uma seleção, que todos torciam e serviam...chamava-se Grêmio Educandário.
  Como todo país que se preze, tinha a sua própria língua, língua propriamente dito não, era um dialeto.
  Algumas expressões, interjeições e termos que só faziam sentido para os moradores desse país chamado Educandário Dom Duarte.
  Em postagem passado falamos da interjeição "Nó", trataremos agora de dois verbos muito usado pelos internos e alguns funcionários do Educa , são eles: "Chupinhar" e "Encanar".
  O primeiro fazia alusão ao pássaro que tem o habito de botar os ovos em ninho alheio, era usado pra definir o roubo de alguma autoria intelectual, exemplo:
  Um menino tinha um jeito de dominar a bola, o outro fazia igual, o primeiro menino gritava:
  _Você está me chupinhando.
  Nisso, haveria sempre um terceiro menino que atiçava:
  _Vai deixar???Se é comigo, eu não deixava.
  Nesse caso, começava o quebra pau, coisa de uns 10 minutos de pancada, depois voltavam a ser amigos.
  O segundo verbo era usado quando alguém estava se escondendo algo que ninguém podia saber, ao descobrir o que foi escondido, havia um grito:
  _Encanei, vou querer, senão... conto pra todo mundo.
  A vasta plantação do lar 14, era bem distribuída no que compreendia a sua divisão territorial, a ganancia do velho Odilon era tanta que a área plantada de qualquer pavilhão não chegava à metade da nossa, o infeliz do interno do pavilhão14, carpia o dobro do que carpiam os outros internos.
  Embaixo dos pés de uvalhas, que ficava na parte alta da lateral do pavilhão, eu, o Viana e o Téquinha percebemos que nossos rivais se movimentavam, entreolhamos e ninjas que éramos, bastava isso, para já ter um plano em ação.
  O Valmir, o Geraldo e o Salvador eram grandes, se descobrissem que a nossa missão maior era tornar a vida deles um inferno, nos bateriam muito, mas isso não detinha a nossa paixão por uma boa aventura.
  Sem perceber que estavam sendo observados, os três foram até a lateral do prédio, olhando pros lados, feito quem se esconde, lá em cima fizemos que não percebemos a movimentação e fingindo uma conversa casual.
  A 10 metros do pavilhão haviam dois barracos de madeira, um era o galinheiro, no outro eram depositadas as ferramentas, o Valmir seguiu pra lá, os outros dois ficaram montando guarda, segundo depois saiu com um facão na mão, quando vimos, já ganhamos a lança e pulamos na estrada, corremos pelo lado oposto do deles, passamos pelo milharal, pulamos a estrada e chegamos no bananal, no meio dele havia uma enorme mangueira, subimos nela e esperamos os grandes.
  Chegaram falando alto, arrotando vantagens e riam alto, como se fossem os mais malandros do mundo, cortaram cinco cachos de bananas no ponto, escolheram esconderijos nos buracos que se formam no espaço de uma bananeira a outra, cobriram com as folhas secas das próprias bananeiras e com as folhas da mangueira e, enquanto faziam isso, riam.
  Quando os vimos passar na estrada, pulamos juntos, pegamos os cachos e agachados passamos pelo milharal, atravessamos a estrada do 12 e descemos para o bosque, "enrustimos" os cachos perto dos abacateiros e rindo, fomos empinar nossos pipas e ouvir Clube da Esquina.
  Em dois dias, um cacho de bananas amadurece, não fomos lá de imediato, ficamos perto da primavera florida, bem na bifurcação entre o 12 e o 14, sentados na paz com nossos gibis de super heróis.
  Os grandes passaram por nós e fizeram piada:
  _Lendo fotonovela???
  Demos de ombros e seguramos o riso, sabíamos onde iam, mesmo assim o Téquinha perguntou:
  _Vão aonde, fazer troca-troca???
  Rimos e corremos pra frente do pavilhão, eles ameaçaram correr e pararam, o Salvador gritou:
  _Ia dar uma banana pra cada, agora não vão ganhar nada.
  Desaforados que éramos, voltamos para o nosso lugar, coisa de uns 4 minutos, saíram de mãos abanando e discutindo entre eles, pareceu-nos que o Valmir estava chorando.
  O Viana, com a maior cara de santo, perguntou:
  _Ué, cadê as bananas???
  Por muito pouco, não caímos na gargalhada, os três falaram junto:
  _O chupim roubou.
  Estavam no ponto, as bananas, quando as tiramos do esconderijo, na arquibancada do campo do 14 a erosão havia formado um buraco, com boa vontade uma caverna, esse era o nosso esconderijo, levamos nosso prêmio pra lá e riamos alto.
  Lá fora escutamos uns passos nas folhas secas e paramos, olhamos para a entrada da caverna, subitamente dois moleques pularam juntos e gritaram:
  _Encanei, vou querer.
  Depois do susto, vimos que eram o Spock e o Floriano, o Viana disse:
  _Ah cala a boca, senta aí que tem pra todo mundo.

domingo, 4 de junho de 2017

O tênis vermelho




  A roupa que os internos do Educandário Dom Duarte usavam eram todas produtos de doações, claro que muitos tinham roupas que as mães davam, no entanto, esse não era o meu caso, desde que entrei no Educa, até o meu primeiro salário na P.G. E, minhas roupas vinham da rouparia central, que era comandada pela dona Djalmira.
  Essa já havia trabalhado no lar 22, a fama de enérgica vinha desse tempo, é fácil que alguém diga que a senhora era seca.
  Eu respeitarei a opinião de quem quer que seja, mas, minha visão das pessoas nunca se deixou ser influenciada por opiniões alheias.
  Para mim, ela era uma personagem num papel trocado, eu a via como uma viúva dos romances de Josué Montello, uma aristocrata que se viu obrigada a conviver entre a plebe.
  Quando me lembro dos adultos da minha infância, são poucos os que tinham um sorriso no rosto, supõe-se que a carestia daquela época tirasse-lhes a alegria de viver,  era um tempo de liberdade cerceada.
  Ela olhava por cima dos óculos e raramente sorria, depois que ela media a roupa no corpo, tomava distancia pra ver o caimento e dava a última avaliação, com a linha na boca, mandava que eu fosse embora e, invariavelmente, eu lhe beijava as mãos.
  Primeiro vinha a mão levantada para o tapa, depois o riso contra a vontade, logo em seguida o grito:
  _Vai embora, menino abusado.
  A sala dela ficava na administração, eu trabalhava com o seu Tinoco, dizia que, pelo fato de eu ser magricela o caimento era perfeito, mas que eu não confundisse isso com um elogio.
  Mês de Dezembro, todo mundo experimentando a roupa da Liga e ela me deixa por último, com razão, quando chegou a minha vez ela me vestiu, além da roupa da Liga, uma calça boca de sino preta, uma camisa branca social e um colete, viu que nada precisava de ajuste e, por cima dos óculos de gatinho, me surpreendeu:
  _Parece um dos Jackson Five.
  _O Michael ???
  _Não, o Germany é mais bonitinho.
  Às vésperas de eu ir pra escola nova, encontrei com ela no caminho do mercado Paraná, eu subindo e ela descendo, gritou-me, do outro lado da rua João de Lorenzo:
  _Passa lá, que eu tenho um presentinho.
  Depois do grito, fez sinal para que eu não atravessasse a rua pra beijar-lhe as mãos.
  Depois de comprar as guloseimas corri pra ver o presente, um tênis Tiger vermelho, na caixa e embrulhado em papel de presente.
  A coisa mais linda do mundo, embrulhado e com dedicatória, o que indicava que esse não fora doação e, dessa vez, não tive que roubar a mão para o beijo, ela mesma as esticou.
  _. Isso quer dizer que a senhora gosta da minha pessoa???
  _NÃO.
  Virou objeto de adorno, não fui pra escola com ele, ficava trancado no meu armário o tempo todo.
  Um dia, tive a infeliz ideia de ir ao estádio calçado nele.
  Sem muito dinheiro fui para a geral do Morumbi, meu timão jogando e nada de visão boa do campo, fiz o que sempre fazia, esperei os policiais se distraírem e escalei a cerca que separava a geral das cativas, um dos PMS voltou e segurou meu pé, como eu não parei, arrancou o tênis do meu pé esquerdo.
  Pulei para o outro lado e iniciei a corrida, mas parei, me lembrei do sorriso da dona Djalmira, voltei pra cerca e falei pro policial:
  _Eu volto, pode até me levar preso, contanto que me devolva o tênis.
  Surpreendido, o policial perguntou o que fazia daquele tênis tão especial assim, outros policiais se juntaram, balburdia no estádio e eu gritando pra explicar a procedência do calçado.
  Devolveu-me o tênis e me conduziu à saída do estádio.
  Não queria assistir mesmo, nesse dia o Corinthians perdeu.