sábado, 9 de setembro de 2017

Vaias são da vida.



O próprio Antônio Brasileiro já foi vaiado, eu, não querendo me comparar ao maestro em envergadura, mas, já fui vaiado também.
Tendo ele como exemplo, tive a mesma calma e, aceitei a vaia, feito quando aceitei o aplauso da mesma torcida.
O campo da São Remo, fica no bairro do Rio Pequeno, um campo de terra batida, numa favela que é vizinha de um agrupamento da polícia militar.
Ainda que não fôssemos o time da casa, a torcida pendia para o nosso lado, os barrancos que circundam o campo estavam lotados.
Partida empatada e o empate levaria às cobranças de penal e, já que eu não devia nada para ninguém, saquei o craque do time, recuei o time e chamei o camisa 15, a reação da torcida foi imediata.
Apupos e xingos, a pobre da minha mãe virou doce na boca dos vândalos, me mantive calmo, dois minutos depois o jogador que entrou fez o gol, a torcida gritou.
Eu disse que aceito a vaia com naturalidade, eu menti, assim que o gol foi comemorado o juiz encerrou a partida.
Fui até o meio do campo, a torcida me acompanhou com os olhos, imaginaram que eu fosse agradecer o apoio, enfiei a mão um palmo abaixo do umbigo, enchi a mão e disse:
_Aqui ó, seus nojentos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A primeira vez que eu vi o mar




  Nasci na capital de São Paulo e a minha primeira infância foi passada num colégio de freiras no Ipiranga.
  Tinha 4 anos e não conhecia a leitura ainda, mas, conhecia o mar dos versos de Vicente de Carvalho, que a irmã Dolores recitava e das canções de Dorival Caymmi.
  No mês de Janeiro, ficávamos acampados em Bertioga, numa escola municipal, no primeiro dia, mal o sol nascia, as freiras nos levaram para a praia e era, na época, uma praia vazia , antes de vermos o mar, já ouvíamos o seu barulho, com 4 anos eu tive medo.
  Quando pisei na areia, vi aquela imensidão, lá longe o sol principiava a subida e parecia pequeno, diante da imensidão daquele azul todo.
  Os outros meninos já estavam dentro d'água e eu olhava tudo com medo, seria redundância dizer que eu me sentia pequeno, já que, eu era realmente pequeno, uma onda veio me buscar, deixei que ela cobrisse os meus pés, a água estava gelada, me afastei.
  No horizonte, o sol já subia metade do corpo, a minha pouca idade tentava entender, aquilo tudo era muito maior que os versos do poeta ou a música, a madre Dolores Brasil chegou perto e pegou minha mão:
  _Mar, esse é o Nilton...Nilton, esse é o mar.
  Foi andando comigo para dentro da água, quando a água já chegava na altura do seu joelho, parou e ficou esperando que eu soltasse a sua mão, soltei e fui ter com os outros guris.
Lá para o meio dia, não havia fome nem ninguém que me tirasse da água.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Futebol é coisa de homens?


Com a patroa a coisa não é diferente, tendo ela um marido técnico de futebol e dois filhos atletas, enquanto os homens assistem as partidas pela televisão, sempre tem alguma coisa para fazer na cozinha, suponho que seja assim em quase todos os lares.
E quando sai um gol, vem a pergunta clássica:
_Gol de quem?
Definitivamente, mulher não tem a mesma paixão, que temos nós, homens.
Um dos times da cidade ia disputar uma partida do campeonato baiano e resolvemos ir ao estádio prestigiar, perguntamos se ela queria nos acompanhar, só para desencargo de consciência e ela respondeu:
_Vamos lá, assistir um futebolzinho.
Tai uma frase clássica de mulher..."assistir um futebolzinho".
Supõe-se que uma mulher que vai à um estádio, acompanhada do marido e de dois filhos barbados, vai só para fazer figuração, isso, fomos todos então.
O estádio Armando de Oliveira tem capacidade para 3.500 pessoas e, para essa partida do Camaçariense, haviam, no máximo, umas 500.
Jogo morno e difícil de se assistir, mais conversávamos que assistíamos o jogo, quero dizer, nós homens não víamos o jogo, a madame não tirava os olhos do gramado.
Nos assustamos, quando ela gritou, olhando para o banco de reservas do time da casa:
_Que merda, hein?!?
A segunda palavra saiu com o R bem aberto, digno de uma paulista, filha de paranaense e, sendo todo mundo lá embaixo baiano, a comissão técnica e os reservas olharam para a arquibancada, à procura da autora da frase.
Para ser mesmo identificada, a madame bateu palmas e abriu os braços, quando percebeu que tinha a atenção de todos, torpedeou:
_Ó, tem mais de 40 minutos que estamos vendo esse jogo e esse time não conseguiu, até agora, uma troca simples de 3 passes, não armou uma jogada pelo meio e não fez uma jogada de linha de fundos, para assistir um jogo medíocre igual a esse, eu não preciso pagar ingresso.
Quando ela terminou de falar, o pessoal do banco continuou olhando, como quem vê e ouve uma coisa surreal.
Providencialmente, nos afastamos dela e, se alguém nos perguntasse, negaríamos de pés juntos, qualquer parentesco com aquela pessoa sem noção.

Só para não dizerem que não falei das flores...


  Olha, com esse golpe, digo, remanejamento de poder, quem saiu perdendo não foram só as mulheres, foi a própria evolução da humanidade...
  Calma, que me explico...
  Até bem pouco tempo, costumava-se dizer, quando a coisa estava russa:
  _A culpa é dos homens.
  Então, com as conquistas que, merecidamente, obtiveram as mulheres a coisa mudou, passou a se dizer:
  _A culpa é da Dilma.
  Pronto, pode-se dizer então que, houve uma evolução com relação ao que se entende por poder instituído, certo???
  Bom, na atual conjuntura, a mulher é modelo, papagaio de pirata e, do lar, foi uma queda bem significativa.
  _Mas, Niltão...você está de má vontade com a moça, ela é linda.
  _Claro que é linda a moça, no entanto, não fede nem cheira.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ainda invicto



Ainda invicto
  . Todo esse tempo e nunca fui assaltado, tem gente que pensa que é mentira, pode ser sorte ou, então é a lua mesmo.
  Dia desses eu me encontrava no lugar e no dia mais fácil de ser assaltado em Camaçari.
  Em frente ao Correio, do outro lado da prefeitura municipal, era feriado e, se você quiser ser assaltado, esse é o lugar, se for feriado e era. então, prato cheio.
  Não que eu quisesse estar ali, estava com pressa e não queria entrar na rodoviária para seguir viagem para Salvador.
  Haviam no ponto, sete pessoas, todas elas com celulares no ouvido, uma moto passou e parou ali, poucos metro à frente, dois ocupantes nela, o da garupa desceu, puxou o revolver, que estava dentro da calça e anunciou o assalto, o único que teve o trabalho de tirar o celular do bolso fui eu, as outras pessoas já estavam com eles na mão e, só entregaram, eu fui o terceiro que estendeu o celular, o assaltante fez que não viu.
  Estiquei a mão e mostrei o meu celular:
_Meu irmão, não quero essa bosta não.
  Recolheu todos os sete e eu enfiei o meu no bolso, o assaltante subiu na garupa da moto e queimou o chão.
  Situação embaraçosa, todo mundo com cara de tacho e, por consideração, me ofereci para ligar para a polícia e todos concordaram.
_Não vai dar não, esqueci-me de carregar.

O doutor Sócrates

Ser Corintiano hoje em dia é fácil, quando eu era moleque, o Corinthians não era esse fenômeno todo e alternava entre a mediocridade e a raça, raça sempre foi o forte do meu clube.
Mesmo assombrando o mundo com a conquista de 1977, não melhorou muito.
Nessa época, eu era ajudante de pintura de dois inimigos, ambos tinham mais de 40 anos e mesmo tendo opiniões oposta em tudo, se davam bem.
O Sergio era branco, protestante e torcia para o São Paulo, era especialista em acabamento, o Claudio era negro, católico, torcia para o Palmeiras e podia pintar 3 casas numa tarde.
Eu fazia parte da equipe, era menor de idade, tinha 13 anos e, tinha que aguentar os dois, os únicos momentos em que eles concordavam entre si, era quando escrachavam o meu time, é claro que eu me defendia, mas havia passado 23 anos na fila, não havia muito o que falar.
Meu sofrimento acabou no dia que o doutor Sócrates fechou contrato com o Timão e, daí então, eu fiquei insuportável.
Em todas as segundas, depois de um clássico contra um dos times deles, eu vinha gritando, cobrando a aposta e a gozação durava até o próximo domingo.
Num belo domingo, quando eu chegava ao Morumbi, para assistir ao jogo contra o Santos, dei de cara com os dois na bilheteria, na fila da torcida do Corinthians...fiquei de boca aberta.
Ao me ver, os dois disseram juntos:
_Não enche o saco neguinho, viemos assistir ao show do Doutor.

domingo, 27 de agosto de 2017

Histórias


Sou um apaixonado por história, a matéria que, nesse tempo, se chamava de estudos sociais pois, englobava também a geografia, talvez isso explique o fato de eu tentar ser o mais fiel, no tocante aos locais nas narrativas, tudo se explica.
Mesmo nos pátios onde a leitura ainda não era conhecida, os três primeiros, o incentivo a ela era marcado e tudo levava o aluno a querer se alfabetizar bem rápido, por exemplo, no Nossa Senhora, havia uma salinha anexa ao dormitório que servia como área de exercícios e uma pequena biblioteca, nas paredes eram coladas ou grampeadas imagens de grandes vultos da história ou figuras notórias contemporâneas.
As freiras faziam questão de colocar cartazes nos lavatórios, com datas comemorativas e heróis, com figuras e textos e, mesmo sem estarem em tempos escolares, havia uma sala de aulas e um pátio com recreio no mesmo horário das outras turmas.
Essas pequenas atitudes, por parte das freiras, contribuíam para que grande parte dos alunos chegassem ao pré-primário, já dominando a leitura e a escrita.
Em 1970, houve uma campanha em âmbito nacional que, visava contar as aventuras do Jeca Tatu, personagem criado por Monteiro Lobato, muito barulho feito e, no fim, uma descarada propaganda em massa do produto Biotônico Fontoura, junto um encarte da tal história em formado de HQ.
Essa questão educacional no tempo da ditadura era tão controversa que, quase ninguém percebeu que, naquele mesmo dia, foi dado aos meninos um outro livro, um encarte grosso chamado Histórias das Civilizações, ficou a impressão de que ele havia sobrado e, distribuiram junto, pois não tinha nada a ver com aquilo tudo, consumiram o produto que, segundo a publicidade, dava vigor e descartaram o livro.
Nesse ano eu estava no Nossa Senhora e guardei o livro embaixo do colchão, não sabia ler ainda, na hora do repouso, ficava tentando decifrar aquele amontoado de palavras.
E, pouco tempo depois eu estava lendo, no salão de jogos havia um monte de gibis, fui devorando tudo, enquanto os meninos brincavam.
A madre enfermeira me deu o primeiro livro, disse que o autor o havia feito de seus delírios na primeira guerra, o nome era O pequeno príncipe e, francesa que ela era, me deu outro, A vida de Napoleão.
A Benedita colecionava aqueles contos românticos desses bem bregas, enquanto ela passava as roupas, me deixava lê-los todos, acabei com a coleção e ela teve que comprar mais.
Uma tarde, no pátio, eu lia um desses enquanto todo mundo brincava, a madre Marcia disse que aquilo era literatura barata, mandou que eu subisse mais tarde à clausura e ela me daria coisa boa para ler.
E sendo ela uma gaúcha, coisa boa era Érico Veríssimo, até hoje tenho uma coleção desse autor.